Compostagem e resíduo
Banheiro seco urbano: o que a gente aprendeu com 8 barris na Urca
O primeiro e único banheiro público do bairro nasceu de um problema que ninguém queria olhar. A parte difícil não foi construir — foi ensinar a usar.
Coletivo Agrofloresta da Urca ·
O espaço era ignorado pela ordem pública e usado por todo mundo. Pessoas em situação de rua viviam ali. Banhistas passavam o dia na Praia da Urca e não encontravam banheiro público em lugar nenhum dos arredores. O resultado aparecia nos fundos do terreno: fezes humanas, de maneira desordenada, com risco real à saúde de quem frequentava.
A ocupação permacultural do estacionamento do antigo Cassino da Urca / TV Tupi não fez isso parar. Limpar o espaço não resolve um problema que é de infraestrutura: não havia para onde ir. Foi preciso pensar numa forma de saneamento que coubesse ali — simples, barata e ecológica.
Por que banheiro seco
Banheiro seco não usa água. Em vez de mandar o dejeto para uma rede que o bairro não tinha como oferecer naquele terreno, ele o recebe num recipiente e o cobre com matéria seca — serragem, folha, palha. A cobertura é o que faz a diferença: ela interrompe o odor, absorve a umidade e dá ao material o carbono que a decomposição precisa. O que era problema vira leira de compostagem.
O princípio é o mesmo da composteira que já existia no espaço. Muda o insumo, não a lógica.
Os números da experiência
Foram 8 barris plásticos de 200 litros no total da experiência. O composto gerado ao longo do processo serviu de adubação para os canteiros do bairro — o mesmo bairro que produziu o resíduo.
E, mais importante do que o volume: aquele foi o primeiro e único banheiro público da Urca.
A parte que ninguém conta
Construir foi a parte fácil.
Banheiro seco é uma forma de saneamento pouco disseminada em meio urbano, e a maioria das pessoas simplesmente desconhecia como usar. A primeira tentativa do coletivo foi a que qualquer um tentaria: uma placa informativa, explicando o passo a passo.
A placa não funcionou. E o motivo é incômodo de escrever: muitos não sabem ler.
Foi preciso implementar uma rotina de diálogos — explicar e demonstrar o uso, pessoa a pessoa, para quem estava em situação de rua e para os banhistas que frequentavam o território. Não uma vez, mas continuamente, porque a população que passa por ali muda.
Essa é a parte do projeto que não cabe num manual de permacultura. A tecnologia social não é o barril; é a conversa que faz o barril funcionar.
O que aconteceu depois
Tornou-se raro encontrar fezes desordenadas no espaço.
E aconteceu uma coisa que o coletivo não planejou: passou-se a ver os próprios moradores sem teto, os mais antigos no projeto, ensinando como se usa o banheiro aos recém-chegados. A rotina de diálogo que a AFU iniciou foi adotada por quem vivia ali e seguiu sem a gente.
Um espaço de acúmulo de lixo, insetos, ratos, baratas e animais peçonhentos havia virado um espaço de convivência entre classes sociais diferentes. O banheiro seco foi uma das peças disso — não porque resolveu o saneamento de um bairro inteiro, mas porque tratou como gente quem estava ali.
Se você pensa em fazer um
Três coisas que a experiência da Urca ensina, e que valem para qualquer território:
- O banheiro é a parte pequena. O que sustenta é a rotina de manejo — a matéria seca sempre disponível, os barris trocados, o composto acompanhado. Sem alguém responsável por isso, ele para de funcionar em semanas.
- Não confie em placa. Presuma que a comunicação vai ser presencial e repetida. Se o seu plano depende de todo mundo ler e entender um cartaz, ele já falhou.
- Trate o composto com seriedade. Dejeto humano exige tempo de compostagem e cuidado no destino. Consulte a legislação local e quem já faz — não improvise essa parte.
O território do TupiAFU foi concedido à Escola Eleva e a jornada da AFU ali terminou. Mas o que se aprendeu naqueles 8 barris continua sendo, até hoje, a coisa mais perguntada quando o coletivo recebe visita.
Venha para um mutirão
Não precisa ter experiência nem trazer nada. A gente ensina tudo no dia.
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